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sexta-feira, 31 de julho de 2015

Exclusivo: Ensecadeira do vertedouro da Usina de Belo Monte aberto no Rio Xingu em Altamira







No final da tarde desta quinta-feira (30), iniciou à vazão da ensecadeira da montante do Sítio Pimental no Rio Xingu pelo vertedouro da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, em Altamira, região sudoeste do Pará, onde está sendo garantindo o cronograma da obra, com o desenvolvimento da região, que será mais um polo de geração de energia sustentável para o Pará e o Brasil.

A construção da Usina Hidrelétrica Belo Monte, no rio Xingu (PA), está alavancando atualmente o maior êxodo migratório dos últimos anos.

São milhares de pessoas que rumaram para Altamira, cidade localizada a 800 quilômetros ao Sul de Belém.

Só de operários a obra atinja no auge mais de 28 mil trabalhadores – cinco mil além da previsão original.


Esse exército de trabalhadores é distribuído por quatro grandes canteiros de obras – Pimental (onde será construída a barragem principal e uma casa de força auxiliar com 233,1 MW), Canais (onde estão os homens que cortarão a selva para a construção de um canal que drenará as águas do Xingu para dentro da Volta Grande), Diques (parede que irá segurar a água do lago que se formará na Volta Grande) e, finalmente, Belo Monte (área onde será construída a casa de força principal onde estarão os 11.000 MW em turbinas).

Além das mudanças geográficas e a nova perspectiva para a exploração econômica de recursos naturais em larga escala nessa região amazônica, Belo Monte representa a mudança definitiva para uma região que convive ainda hoje sob carências de infraestrutura básica e um ambiente de violência, gerado pela ocupação irregular do território, a grilagem de terras e a exploração ilegal da madeira.

A expectativa é que Belo Monte altere para sempre a vida de Altamira e de todas as cidades da região, como Vitória do Xingu, Senador José Porfírio, Anapu, entre outros municípios. A previsão é que 20 mil famílias sejam retiradas de suas propriedades e realocadas em algum ponto da região dando espaço para Belo Monte.

A demora para essa solução tem criado incertezas para centenas de famílias que não sabem o que pode ocorrer no futuro de uma região com grande fluxo migratório.

Em Altamira, cidade polo regional, a população dobrou nos anos da construção, de 100 mil para 200 mil habitantes.

Parte dessa gente chegou para tentar aproveitar as oportunidades econômicas que o projeto, cujo custo deverá ultrapassar R$ 30 bilhões, esta gerando.

História do projeto - Idealizado ainda no governo militar, em 1975, o projeto do complexo Kararaô (o primeiro nome de Belo Monte) tinha dimensões ainda mais superlativas em relação o atual.

Na ocasião, a Ditadura Militar imaginou uma obra com seis barragens entre os rios Xingu e Iriri, configuração que não poupava sequer o Parque Nacional do Xingu.

O parque foi criado pelo efêmero governo de Jânio Quadros e representou uma conquista dos Irmãos Villas Boas, resultado concreto da chamada Expedição Roncador, uma missão que tinha o propósito de interiorização do Brasil e que foi criada em 1943 pelo governo de Getúlio Vargas.

O propósito de tomar uma parte do Parque Nacional do Xingu, onde vivem comunidades indígenas – entre os quais o líder indígena Raoni, um dos maiores combatentes do projeto Belo Monte –, criou um movimento contrário ao aproveitamento hidrelétrico do caudaloso rio, um dos principais afluentes do Rio Amazonas.

O projeto dos militares previa a construção de um complexo hidrelétrico com capacidade instalada de 20.000 MW (maior do que a Usina Hidrelétrica de Itaipu) e o alagamento de um território de 18.000 quilômetros quadrados, uma área 12 vezes maior do que a cidade de São Paulo.

As implicações socioambientais da obra, associada a grande dificuldade econômica brasileira entre as décadas de 1980 e 1990, transformaram a obra numa sombra para os povos da região, mas que, até então, jamais havia se concretizado efetivamente.

Somente depois do racionamento de energia que o Brasil foi obrigado a adotar em 2001, o projeto Belo Monte ressurgiu como uma necessidade do país. Não sem revisões.

O Brasil pós-Rio92 e pós-lei de crimes ambientais (1998) adotou critério mais postura mais restritos em relação aos grandes projetos de infraestrutura que haviam sido construídos no país outrora, como a Hidrelétrica de Itaipu, de Balbina, de Tucuruí, ou mesmo a longa e polêmica Rodovia Transamazônica.

A necessidade de expansão da geração hidrelétrica fez a União, a partir do governo Lula, considerar a hipótese de reduzir o projeto de Belo Monte. Foi a concessão que o governo aceitou dar em troca do avanço do setor elétrico sobre os imensos rios em toda a região amazônica. É nos largos rios amazônicos a última grande reserva brasileira para produção de energia com o uso da força da água. De todo o potencial hidrelétrica ainda existente no país, cerca de 70% está lá.

A primeira providência com Belo Monte foi redimensioná-lo. Depois de inúmeras discussões, o governo federal chegou a uma versão, em 2009, que previa a construção de apenas de uma usina: Belo Monte. O Conselho Nacional de Política Energética, a instância máxima da autoridade do setor elétrico brasileiro, emitiu resolução dizendo que apenas uma usina no rio Xingu será construída.

O governo afirma que esse é o maior compromisso com os povos amazônicos e a prova que o Xingu abrigará apenas uma usina. Os críticos afirmam que a crise energética pode levar qualquer governo no futuro a derrubar essa resolução e abrir espaço para outras barragens rio acima.

Polêmica à parte, o projeto único foi apresentado em quatro audiências públicas realizadas pelo Ibama naquele ano de 2009, entre as quais a audiência realizada em Altamira, a maior já organizada para a discussão socioambiental de um empreendimento no Brasil.

O projeto prevê a construção de uma usina com capacidade instalada total de 11.233,1 MW e o alagamento de uma área de pouco maior de 500 quilômetros quadrados. O plano de alagar terras indígenas foi abandonado, mas para isso, a obra provocará uma profunda mudança na geógrafa da região da Volta Grande do Xingu.

Uma barragem está sendo erguida no leito do rio, na região da Ilha Pimental. Essa parede permitirá que um canal seja construído a montante e drene grandes volumes de água para a Volta Grande, onde será construído um imenso lago com cerca de 60 quilômetros de extensão.

Antes de a água ser devolvida ao Xingu, ela deverá impulsionar as turbinas da casa de força principal, em Belo Monte, às margens da Rodovia Transamazônica. É lá, às margens da Transamazônica, que as águas desviadas do Xingu voltam ao leito original do rio.

Esse atalho em construção na região deve reduzir drasticamente o volume de água que corre no leito rochoso e exuberante da Volta Grande. Com isso, boa parte do rio na região deixará de ser navegável, o que deve comprometer a mobilidade de ribeirinhos e de indígenas que moram na região e dependem do transporte em pequenas embarcações para alcançar a cidade de Altamira.

A expansão econômica do Brasil depende da energia do rio Xingu, mas o desenvolvimento que aporta na região, como reveladas tem seu preço.
A Amazônia vive um novo ciclo em sua história, talvez um ciclo que a mude para sempre.


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